Os 10 anos da Azouge ganham edição especial

(publicado no JB/Idéias de 11 de setembro de 2004)
por Caio Meira*

Azougue 10 anos
Vários autores
Editora Azougue
446 páginas, R$ 60

A poesia e os poetas nunca tiveram vida fácil. Sempre houve enorme dependência de algum editor idealista, muitas vezes empenhando seus próprios recursos para que o público viesse a conhecer um grande poeta. Se hoje vivemos cada vez mais sob a égide das leis do mercado e a figura do editor, tal como era concebida há algumas décadas, tornou-se rara ante a força impessoal das corporações, o caminho da edição para a poesia ficou ainda mais estreito. Por isso mesmo, em todo o espectro da produção poética, mais do que a do próprio poeta, a do crítico literário ou a do leitor, talvez seja a intervenção do editor a que mais falta se faz sentir. Se, entre todas as artes, a poesia é a que mais resiste a se tornar espetáculo, falta hoje aquele que tire os poetas do limbo e lhes dê tanto visibilidade quanto viabilidade.

Nesse sentido, é mesmo prodigioso, em tempos bicudos, ver uma revista literária como a Azougue completar 10 anos de existência e, principalmente, comemorar o evento lançando uma bela edição, em que fica patente o cerne de seu trabalho, apresentar e dar viabilidade à poesia. Apresentar, aqui, tem o sentido de evidenciar o que, apesar de presente, passaria despercebido sem essa apresentação, sem a intervenção do editor. É um fenômeno que uma revista dedicada à literatura, em especial à poesia, tenha se mantido persistente por toda uma década e, ainda mais surpreendente, que tenha dado origem à Azougue Editorial, uma das poucas editoras em atividade a ter um projeto editorial para a poesia.

Sergio Cohn, o editor à frente da Azougue, tem todas as características dessa figura hoje em extinção. Cabeça, o coração e os pés do projeto de tornar a poesia viável, ele não é, ao contrário do que possa parecer, um louco sonhador. Os resultados provam que é possível, sim, publicar poesia sem falir. O editor e os 20 autores reunidos no volume comemorativo têm em comum o fato de se situarem na contramão de uma falsa idéia que infelizmente predomina entre críticos, editores, leitores e poetas: a de a poesia seja algo inútil (o que faria dos poetas seres imprestáveis).

A perspectiva da inutilidade da poesia, oriunda de pensamentos como os de Martin Heidegger ou Roland Barthes, difundiu-se entre nós de maneira equivocada. Para esses pensadores, afirmar que a poesia é inútil significa enfatizar, antes de tudo, sua insubmissão ao utilitarismo e à subserviência comum nas sociedades modernas, e isso não apenas do ponto de vista da linguagem. Essa concepção debilitou-se progressivamente a ponto de, hoje, relacionar o poeta a um diletante, praticante de uma arte sem qualquer poder ou ambição de intervir no tempo presente e nas tensões postas pelo mundo contemporâneo.

Todos os poetas e prosadores reunidos na Azougue 10 anos estão longe dessa visão da poesia enfraquecida, acomodada ao princípio de que não existem leitores (ou compradores) em número suficiente. E já que outras editoras preferem não apostar na identificação e publicação de novas poéticas, Sergio Cohn e os demais azougueiros decidiram ocupar esse espaço.

A Azougue 10 anos não pretende, entretanto, oferecer um panorama da produção poética atual. Esse é o defeito, aliás, de muitas revistas literárias, inclusive virtuais, carentes de um pensamento crítico. O que distingue a Azougue é justamente esse recorte que põe em evidência aqueles que fazem da poesia uma maneira de viver o tempo presente. Sem descartar ou combater obras e autores consagrados, a Azougue quer dar destaque aos poetas e prosadores que, apesar de já estarem vivendo a maturidade de sua arte, se vêem condenados a um determinado círculo de iniciados, como Leonardo Fróes, Roberto Piva, Armando de Freitas Filho, Fernando Ferreira de Loanda, Paulo Henriques Britto, Vicente Cecim, Rubens Rodrigues Torres Filho e os demais autores. Todos esses nomes já mereciam ter seus livros incluídos nos cursos de literatura, do primeiro grau à pós-graduação. A própria revista nasceu do impacto da poesia de Roberto Piva sobre seus então jovens admiradores. O tempo passou, o fanzine amadureceu, Sergio Cohn trocou são Paulo pelo Rio de Janeiro e aqui transformou a revista numa editora que publica em todos os gêneros literários, mas que vem se mantendo fiel a seu projeto inicial, divulgar a poesia.

Do mesmo modo que cada um dos 20 autores da Azougue 10 anos se distingue por essa vontade de intervenção no mundo, a própria Azougue, em sua concepção, é uma intervenção, por que não dizer, poética. Afinal, o que é poesia senão fazer eclodir algo onde nada havia, ou tornar manifesta uma existência num lugar que a todos parecia estéril? Se na raiz do poético está não apenas a criação, mas a sustentação de sua manifestação, poeta, leitor, crítico e editor estão certamente unidos, atravessando e sendo atravessados uns pelos outros – e sobretudo pelo poema finalmente impresso em páginas de livros e revistas. Sergio Cohn (não por coincidência, também poeta) e a Azougue encontraram na edição mais uma forma de fazer poesia.

*Caio Meira é poeta e publicou COISAS QUE O PRIMEIRO CACHORRO NA RUA PODE DIZER