Francisco Bosco comenta Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer, de Caio Meira

resenha publicada no Idéias (Jornal do Brasil: 05/06/2004)

 

Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer  - CAIO MEIRA

(Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2003)

 

A concepção de “sujeito” sofreu violentos abalos na modernidade pós-romântica. Do “eu é um outro” rimbaudiano ao inconsciente freudiano, o sujeito foi destituído de sua consistência e autonomia. Esse processo acarretou uma espécie de desconfiança do lirismo, já que a lírica, entendida como manifestação poética de uma subjetividade autocentrada, não poderia corresponder à transformação histórica em curso da concepção de sujeito.

            Entretanto, essa definição de lírica como um mundo subjetivo encerrado em si mesmo (derivada, possivelmente, de Hegel), é teoricamente questionável: não seria o lirismo antes da ordem de uma “despossessão” do sujeito, de uma perda de si mesmo, de sua unidade, de sua autonomia? O sujeito lírico não seria, como na expressão de Michel Collot, um “sujeito fora de si”, que traz para a linguagem a experiência de sua alteridade fundamental?

            Essa visão que afirma a contemporaneidade da lírica (pelo menos: de certa lírica) é confirmada por esse livro do poeta Caio Meira. Nele, configura-se uma espécie de “lírica do fora”. O poeta traduz uma experiência radical de alteridade: “nem sei que tipo de limite representa a pele, se me separa da madrugada ou me une a ela”. Sua identidade se manifesta por deslizamento, deslocamento, contigüidade; coisa entre coisas, o poeta é poroso ao mundo, atravessado e modificado por ele. O poeta é um “ornitorrinco”: bico de pato, cauda de castor - animal que encarna a transição, um ser entre.

            Experiência, portanto, da alteridade, este é um livro de “coisas demais”. Um livro que se move ao rés da imanência, no chão. Sem sobrevôos. Um livro que recusa buscas por pureza, transcendência, idealização: nenhuma “cintilação interior”, antes uma “lanterna halógena rayovac”. Um livro que recusa a idealização, mas também a idealização da imanência: é preciso evitar os falseamentos, por isso o poeta toma um táxi ao invés de um “ônibus inexistente”, pois essa “é a sua maneira de ser mais honesto”. É um poeta da classe média, como dele disse, recentemente, um outro poeta.

            Dividido em três partes, cada uma delas apresenta um modo diferente da experiência da alteridade. No segmento inicial, a alteridade se dá por permeabilidade. A ausência de pontuação e o ritmo entrecortado traduzem, isomorficamente, a porosidade do sujeito ao mundo: as frases se interpenetram como o poeta é atravessado pelas coisas. Aqui a topografia é acidentada, há menos avenidas do que pequenas ruas e alguns becos. O pensamento não reúne nem domestica as coisas; “nenhum balanço pode ser feito”. O discurso é “afásico”, “entre-fôlegos”, feito das “coisas sem sentido que me compõem”.

            Na belíssima segunda parte, a alteridade se dá por deslizamentos. O díptico que inaugura essa série compõe uma espécie de “jogo à distância”: alguém espia pela janela uma mulher que se acaricia, “se toca”, “se roça”, retira o sutiã, enquanto se prepara para dormir. Em seguida, por deslizamento da enunciação, o leitor descobre que a mulher se sabia espiada, e que realizou, à distância, um jogo erótico com o voyeur. No poema seguinte, “Fora de lugar”, uma escova de dentes deixada fora do copo anuncia a presença  (pela marca de sua desordem habitual) da pessoa amada que já não se encontra na casa. Aqui, deslizam a ausência e a presença, uma revelando-se pela outra.

            Na parte final, o poeta dá a vez a vozes femininas. Em “a terceira morte de m.m.”, uma Marylin Monroe contundente e incisiva reflete à beira do gesto final, pouco antes de “soltar a terrível gargalhada”. Nesse segmento, completado pelos poemas “odd lady” e “gardênias para eleonora”, é portanto na encenação da enunciação que reside sua forma de alteridade.  

            Lírica do fora, poética da alteridade, este livro está repleto de coisas. O livro é um inventário delas. Estão por toda parte, já que o poeta “anda fugindo das imagens em poemas, anda atrás das coisas mais palpáveis, sólidas”. Sábio caminho, pois é nelas, nas coisas, que reside a beleza desse livro. Não se trata de uma abordagem ontológica (como, por exemplo, no “partido das coisas”, de Francis Ponge), mas sim de uma tomada de distância como forma de conhecimento - o livro se retira do mundo, destaca-se dele para que, através do estranhamento da distância, possamos experimentar a proximidade: conhecer.

Daí o elogio, em todos os sentidos justo, que lhe faz o poeta Antonio Cicero: “A poesia de Caio Meira tem a coragem de ter o prazer de conhecer e de estranhar, e de dar a estranhar e a conhecer aquilo que todo o mundo nem sequer lembra de ter tido um dia a coragem de conhecer ou estranhar de verdade. Por isso, isto é, pela sua beleza, ela deve ser lida”.

                                                            Francisco Bosco