Coisas
que o primeiro
cachorro na rua pode
dizer
[
Caio Meira ]
We are all
sculptors and painters, and our material
is our own flesh and
blood and bones
Thoureau
acordo e durmo debaixo da
pele, sobre a crosta da terra, com camadas de cidade enterradas
movimento películas e
superfícies entre outras películas e superfícies quando saio à rua, ou quando
me encosto no parapeito desta janela que se despede da noite
acordo e durmo entre membranas
impalpáveis, com enzimas, autoregulações e
imponderáveis combustões
metabolizo rostos e teorias em
meio à confusão de lembranças despropositadas, entre secreções sebáceas, tubos,
alvéolos e histórias acumuladas
por vezes sinto esse torvelinho
dentro da barriga, e não sei se é fome ou lembrança de fome, ou se são
movimentos espontâneos da voracidade do vazio
nem sei que tipo de limite
representa a pele, se me separa da madrugada ou me une a ela
se o frio que sinto nesse vidro me
pertence ou sou eu que pertenço ao frio ou ao vidro, ou se o ponto em que tudo
se entrelaça surge apenas para desaparecer
sei apenas que sou
permeável a esta manhã que desaba seus vermelhos por prédios e morros, por
muros e árvores
o mesmo sol
aquece esta manhã de setembro e
espalha uma secura inesperada por superfícies vivas e mortas
dizem que não chove por aqui há
mais de cinco meses
com a umidade do ar abaixo
dos 10%, com a grama tão ressecada, à beira de tornar-se palha, espero neste
gramado por alguém que não vejo há tantos anos
sob este sol
passo desidratado fazendo a
corrida diária, ou abro o capô do carro para pôr mais água no radiador, ou
espero o sinal verde para seguir com a vida
mas não adianta
agora falo como se viesse de parte
alguma
música, língua, cor, pele, terra
roxa dentro dos pulmões, talvez o caminho que as pernas um dia fizeram nesta
cidade
as direções que as coisas tomam
numa praça ou numa rua distante
mas o sol é o mesmo, astro
indiferente queimando sua órbita sem fim
o mesmo sol inunda o nômade
atravessando o deserto de Mojave ou apodrece a perna
de um escritor entregue à morte na fronteira da Tanzânia com o Quênia
em Botafogo, na
arquibancada à esquerda das cabines de rádio do Maracanã, em réstias, sufocante
dentro de uma cela em Bangu 2
no carburador que fuma, na
clorofila erguendo este ipê amarelo ou na vitamina D que garante firmeza para o
colo do meu fêmur
para caminhar ou apenas esperar em
pé
o mesmo sol desperdiçado no topo
de uma montanha solitária (avistada daqui através de um cartão-postal)
é melhor procurar um bar e pedir
um copo d’água
antes de me entregar à sequidão
ambiente
que esturrica os cabelos, faz
estalar os joelhos e torna mais árida uma espera
antes de ver no jornal da noite os
redemoinhos de fogo cortarem o planalto central e os demais modos da presença
solar
nos tijolos, nas telhas de
amianto, nas caixas d’água vazias, no nó da gravata afrouxado durante um café
suarento no mercado central, na gema do pequi exalada ao lado de cajamangas verdes e lavados para se comer com sal, no pouco
reflexo da água suja de um tímido lago, último refúgio de cisnes improváveis e
encardidos
e mesmo à noite no zumbido do
ventilador que espalha ar quente pelo quarto
aprender com o sol e não alimentar
falsas esperanças
ninguém virá emergir da memória
para retraçar horas perdidas
todos foram queimados, esquecidos,
rotos, esquartejados
alguns podem estar mortos, mas não
fui convidado a nenhum sepultamento
os que permanecem vivos ignoram
solenemente a profusão de praças e ruas que desembocam neste momento
nem se importam, nem se enfadam,
nem se movem
pegar um punhado dessa mistura de
mato seco, poeira e formigas, cheirá-la ou talvez comê-la, não significa ficar
mais próximo da terra ou da gente
em órbita distante, a anos-luz do
calor que vibra esses ossos
quinze para as duas da tarde
na trajetória indefinida da bola,
um vôo cego de idéias inacabadas quicando no chão e nos muros
ah!, se não tivesse quebrado tantas
promessas de intimidade, ou não faltasse aos encontros e aos riscos
talvez fosse milionário e
igualmente descontente, talvez estivesse feliz criando cogumelos em Nova Lima
não tenho radar para me guiar no
escuro, e na claridade desta tarde orientes e mitos surgem ofuscados
sobram contornos, arestas,
rugosidades
e entre uma linha e
outra, inúmeras e imprudentes lagartas esmagadas
e entre o chão e o aro, o peso e a
circunferência onde me arremesso
talvez eu deva jogar na mega-sena
acumulada
e se ganhar aquela bolada (ah!, se
ganhar aquela bolada), ir rifar o dinheiro com as putas parisienses, subornar
um senador da república ou patrocinar cocaína para os amigos
mas o que pode restar de
alguém que um dia ganhou tantos milhões de dinheiros
poderá caminhar à tarde, pegar o
metrô em Botafogo e ir ao centro da cidade procurar um livro no sebo?
poderá dormir no ônibus, com o
rosto encostado no vidro, e não saltar no ponto de descida?
perder-se, sentir fome, carregar
silenciosamente uma hérnia de disco, ter um pâncreas ectópico, uma esofagite de
refluxo
não sei por quanto tempo os
joelhos vão suportar todos estes impactos
há tantos arremessos, encontros,
chutes, medidas
e coisas sem sentido que me
compõem, habitam os passos e os intestinos
há ainda muito a fazer
escutar cantores populares que
vêem deuses todo santo dia, ou comem pentes, ou decifram o mistério das
pirâmides, a configuração das estrelas
não para tentar responder ao
tablóide inglês qual o sentido da vida
pois essa é mais uma coisa que
você pode perguntar ao primeiro cachorro na rua que ele vai lhe dizer
nesta manhã de janeiro,
pesa-me o peso de todas as coisas, com os olhos ainda embaçados de sono, os
ouvidos guardando a acústica de silêncios, e a boca, a língua, a saliva, as
fibrocartilagens, a glote, os uivos, a janela fechada, os retesamentos,
o bolo alimentar, os movimentos peristálticos, a pirose, a ânsia, a fôrma da
bacia persistindo na espuma, a estridência do rádio-relógio, o arcabouço do
teto, e demais zumbidos que instigam o nervo motor da laringe
esparramado entre vetores de
força, decisões se misturam às dúvidas, ocupar determinada posição na cama,
mudar de bairro, freqüentar universidades, gafieiras, bordéis, analistas,
atravessar a casa, lidar com as coisas domésticas, voltar a dormir ou ir para a
rua ver o primeiro sol do dia, abrir bem os braços, estufar o peito e inclinar
a cabeça para trás, em meio à poeira e o vento, e sentir, na coluna vertebral,
o deslocamento simultâneo da minha vida
que importa a neurose, a
escoliose, a miopia, os atos lerdos ou incisivos, a marca do mercúrio no
termômetro, ou as fases da lua, se estou inapelavelmente nu, sem ruído, sem
sorriso, sem proeza, apenas unhas e cabelos transitando de modo esporádico
entre projetos de viagens, de vacinas, de farras, de livros, essas coisas que
já nem impressionam os amigos em mesas de bar ou ao telefone
num desses dias eu paro de nascer
sem mesmo ter tempo de improvisar qualquer lápide ou discurso, e mesmo se eu
tiver uma caneta bic no bolso e um guardanapo ao
alcance da mão, mesmo se eu tentar ficar de bico fechado, desviar o olhar ou
apenas sorrir com simpatia, mesmo que eu invente um compromisso inadiável com
um fiscal da prefeitura, mesmo mordendo a língua, esperneando ou abjurando a
minha estirpe, as coisas vão estar resolvidas, agudamente, e quaisquer que
sejam os números da soma de meu nome (de fato, será indiferente o fato de ter
ou não um nome), já estarei na companhia dos demais canalhas
tem aquela vez que imitei
um macaco para arrancar a primeira gargalhada dos meninos
tem o tiro passional, a quantidade
de chumbo na água, as anotações rabiscadas de madrugada no caderno verde
tem um cara discursando sobre um
caixote numa praça de Londres, outro acaba de afirmar na televisão que tudo é
química
tudo é beijo, coxa, intriga,
números de telefone esquecidos, sonda orbitando outros mundos
ou tudo poderia ser geografia,
economia, ortodoxia, taxionomia de órgãos propulsores, um apêndice supurado,
configurações cervicais, o mapa da vida estampado no consultório de um japonês,
no centro da cidade
tem todas as aberrações costuradas
de modo a parecerem uma obra de arte, mas que são, sobremaneira, inverossímeis
até agora, o destino me tem sido
maleável, e junto à mandíbula e ao esporão, junto ao pavilhão auricular a essa
altura entorpecido por buzinas e alarmes contra roubo, junto aos molares, cabem
dores lancinantes e o desopilar de uma gargalhada
cabe tudo o que entra pela janela
do olho e se amontoa com as transcrições, edições de revistas folheadas em sala
de espera, diferentes versões de uma mesma sonata de Beethoven
cabem até os estampidos que
ninguém ouviu (a árvore que caiu sozinha no meio da floresta) e listas
intermináveis de tudo que faz mal à vida
um dia, talvez se chegue à
conclusão de que a vida faz mal à vida, e só seremos socorridos por essas
coisas de origem remota e misteriosa
esses cachorros equívocos que
atravessam cidades e voltam para casa, ou a coordenação das revoadas de pardais
às seis horas da tarde
e demais gestos peculiares de
todos, híbridos de tudo e de nada, à proa de vontades subcutâneas, pormenores
do jogo de forças macroeconômicas (sobredeterminados
por uma jogada da bolsa de Cingapura)
e se decidirem que a
vida faz mal à vida e o mundo estiver por um fio (se digitados os códigos
certos), pelo menos deixem-me perpetuar o segredo de algumas misturas
não sei migrar para o sul
quando chega o verão, nem caminhar sobre o carvão em brasa
carroças já não passam por minha
boca
desconheço regras de retórica, o
manejo de sombras, tipos exóticos de peixes, datas e aparatos de cerimônia
sei que tenho 32 dentes, leio
livros e jornais, vou ao mercado e ao cinema, escuto música clássica e popular,
e posso dizer de cor os números dos meus documentos, além de uns poucos poemas
aprendidos há muito tempo
teimo também em me lembrar
dos conselhos dos amigos, que permanecem vagando desacertados entre frases que
de algum modo saltam prontas de minha garganta
não posso, apesar de grandes
esforços, distinguir o fútil do necessário, o que me vale tantas horas
misturando fadiga e prazer
nenhum balanço pode ser feito
apesar de meus olhos e meus pés se
considerarem auto-suficientes na avaliação das distâncias, acabo sempre por
tropeçar numa pessoa ou numa pedra
essas perturbações chegam
por todos os lados e meios
a garganta sempre interrompida por
alguma pancada, os olhos abalroados nas calçadas, as vitrines interpondo
luminosidade e temor
não, nenhuma imagem poderá reter,
e permanece desarticulado sob a língua, e se subtrai das fotografias ou vaza de
qualquer disposição solidária
padeço dessa incerteza primitiva,
deambulando da suspensão de qualquer afirmação à remitência da frase dos
populares oferecendo suas bugigangas
por que efeito ótico, por que
alteração mórbida, por que afecção sonora essas disparidades me conformam
eu poderia não ter um olho, ser
banguela, maneta, capengar, mijar sangue, ter estigmas pelo corpo
poderia comer vidro, iludir
passantes, fazer embaixadas ou simplesmente afixar num pedaço de papelão os
garranchos da minha biografia
por vezes a coisa é simples e
basta querer, basta anunciar, basta um gesto ou produzir qualquer sinal
compreensível para ser inserido na vigência ou no refluxo da multidão
mas não, os rumores são logo
abafados, dependurados do lado de fora das bancas de jornal, apregoados em
panfletos que não sobrevivem por mais de dez passos
e a indignação comentada nas filas
dos caixas, o suplício público dos pedintes, a reverberação do calor corporal
ou apenas a deriva transeunte da tarde de segunda-feira, todo clamor encontra,
em meio a seu mutismo, sua consumação
abrigar (rostos de nomes, ruas
de lugares, cidades de casas, livros de frases), ordenar, comer, dar os
telefonemas necessários, ter uma paixão transpirando em algum ponto do mundo e
do corpo, cuidar do corpo e do mundo, corpo subsistente em determinada posição,
a salvo ou na mira de algum perigo, mundo exibido aos sentidos em diversas
superfícies luminosas, cortinas de som, suavidade de um tecido, mas um mundo
sempre local, parcial, limitado pelo alcance e pela vontade do encontro, então
necessário
sentar-se nalgum ponto implica
calar muitas vozes prementes, emudecer timbre, espessura, comprimento, sufocar
aflições que partem de pontos limitados e parciais do mundo, seja em qualquer
dos lados da epiderme, seja convertido em fluxo sangüíneo e contração muscular,
seja uma suspeita, um sussurro entreouvido ou pressentido, vindo, em aparente
paradoxo, de parte alguma, de um ponto vazio, onde não se pode sentar-se, nem
mesmo calar
ou dirigir-se, ou imprimir-se,
tomar pulso, dar vazão a um aguilhão (escolhido, sabe-se lá como, de dentro do
tumulto), o que implica em certo alívio, embora temporário, na pressão do
sistema, marcando a passagem do corpo pelo mundo, marcas anotadas, lembradas,
revistadas, e que por serem assim tão preservadas se tornam partes efetivas do
corpo, apêndices entre o corpo e o mundo, órgãos oficiais dos movimentos de
felicidade
ademais, a contrapelo de
qualquer utopia, não há confim possível, nem mesmo um fim possível, que não
seja o fim de todas as coisas, o apagar definitivo de todos os mundos e todos
os corpos, um armagedon particular das forças
instiladas nas fibras, do curso dos fluidos, das conduções elétricas que
permitem erguer um copo ou evocar um rosto e ligá-lo a um nome
ademais, à proa de qualquer
profusão, viver implica esquecer a maior parte dos rastros e concentrar-se no
balanço imediato do cor
po, nos afagos, no júbilo
de ver, toda manhã, a geografia e a história do corpo se reconstituírem no
mundo, a musculatura se redesenhar diante do corpo da mulher, que se mostra,
que se amplia, que se abre em pernas, cheiros e líquidos
repetidas vezes, AVL quer ser
poeta: vem com aquelas palavras asseadas, que não mijam em banheiro público,
dobras de panos que não arrastam na lama, incutidas por unhas que nunca
estiveram atochadas na graxa
quer encontrar a frase iluminada,
mas não por lâmpada de supermercado ou lanterna halógena
raiovac, quer a luz escoada em página de livro, em
cidade desaparecida, cintilação interior, como ela diz
ela é sabida, visita paris uma vez
por ano, tem a última versão (importada) da ciência estética, estudou oito anos
de piano e não escuta música popular há muito tempo
apesar de craque em lítotes, dáctilos e trocaicos,
recusa-se a se debruçar sobre as bielas e o diferencial que fabricam o
movimento do seu carro
vou dizer a ela: quando o motor
não quiser pegar, você vai acabar tendo de mostrar a bunda pra galera
(AP depois comenta que AVL seria
escritora se não fosse a Sorbonne e o sabonete para
pele macia)
AVL argumenta que motor de
caminhão não é coisa feminina, prefere botinhas, chapéus e a pronúncia correta des habits de fin
de siècle
sei lá, o que pode ser mais
feminino do que um maverick 72, verde-abacate, com o
radiador furado (no porta-malas, uma garrafa de plástico cheia de água da bica
para completar o nível a cada parada)
o feminino não anda assim em dicionário,
nem nas declarações apimentadas em página de revista, nem em tese de faculdade
eu vi o feminino outro dia, na tv,
quando B. reclamava que há muito tempo não lhe passavam a mão (fiquei sem saber
se é ela a dona do maverick)
ou quando FB me disse, na beira da
praia, que sexo é tão bom quanto pão de queijo e água de coco
À distância, vejo, ela se coça. E
se toca. E se roça. E se explora, em tudo distraída. Uma apostila indecifrável
troca de mãos. E a outra mão, a vaga, tateia a virilha, o umbigo, a batata lisa
da perna, sente o tecido da calcinha, a alça branca sobressaída, a aspereza
possível da sola do pé (amanhã de manhã, talvez, mereça a lixa). De vez em
quando, quando levanta, para buscar água, eis que a bunda abocanhou o tecido:
precisa então retirá-la, folgá-la, cobrir de novo o rego e voltar a ser, caseiramente, casta. Logo torna a sentar, uma perna aberta, abraçada à coxa. Lendo, ainda, continua a
se percorrer sozinha, estendendo a superfície externa enquanto fica mais íntima
do texto. Já é tarde, porém. Boceja. Fecha as páginas. Olha o infinito. Acho
que nem me adivinha. Levanta-se e, de frente, descaradamente, abaixa o sutiã
por inteiro, ajeitando-se para dormir. Olha os peitos, miúdos. Alisa a barriga.
Volta o sutiã ao lugar mais exato, mais correto, de um suposto conforto. Então
sai do quadro da janela. Por uns minutos, fica o cômodo vazio (mas cheio de
expectativa). Volta com um lençol fresco, dobrado, passado,
que cheira. Lavanda? Abre o lençol sobre o sofá-cama. Caminha até a
porta, dá mais uma volta na chave. Ajeita de novo a briga da bunda com a
calcinha. Na parte da frente, suspende o tecido, como se fosse para permitir
uma respiração. Boceja. Vai até o interruptor. Por alguns instantes, não faz
nada. De pé, parada, não se move. Depois, tira a calcinha e a coloca sobre a
mesa. Mas não passa a mão na pentelheira. Não
conserta nem mesmo um pêlo de seu desacerto, da selvageria negra. É a única
coisa indisciplinada na figura, sob a luz da lâmpada solitária que pende do
teto. A única revolta. O resto está acertado, liso e sem interrupção. Só ali é
que não se escorrega, é que tudo pára. Boceja. Por fim, apaga a luz. E faz do
negrume que era apenas um ponto devorar todo o quarto.
À distância, ele me vê, e eu me
coço. E me toco. E me roço. E me exploro, em quase tudo distraída. Troco,
indecifrável, uma apostila de mãos. E com a outra mão, a
vaga, tateio a virilha, o umbigo, a batata lisa da perna, sinto o tecido
da calcinha, a alça branca sobressaída, a aspereza possível da sola do pé
(amanhã de manhã, talvez, mereça a lixa). De vez em quando, quando levanto,
para buscar água, eis que a bunda abocanha o tecido: preciso então retirá-la,
folgá-la, cobrir de novo o rego e voltar a ser, caseiramente,
casta. Logo torno a sentar, uma perna aberta, abraço a outra coxa. Lendo,
ainda, continuo a me percorrer sozinha, estendendo a superfície externa
enquanto fico mais íntima do texto. Já é tarde, porém. Bocejo. Fecho as
páginas. Olho o infinito. Acha que eu nem o adivinho. Levanto-me e, de frente,
descaradamente, abaixo o sutiã por inteiro, ajeitando-me para dormir. Olho os
peitos, miúdos. Aliso a barriga. Volto o sutiã ao lugar mais exato, mais
correto, de um suposto conforto. Então saio do quadro da janela. Por uns
minutos, fica o cômodo vazio (mas cheio de expectativa). Volto com um lençol
fresco, dobrado, passado, que cheiro. Lavanda? Abro o lençol sobre o sofá-cama.
Caminho até a porta, dou mais uma volta na chave.
Ajeito de novo a briga da bunda com a calcinha. Na parte da frente, suspendo o
tecido, como se fosse para permitir uma respiração. Bocejo. Vou até o
interruptor. Por alguns instantes, não faço nada. De pé, parada, não me movo.
Depois, tiro a calcinha e a coloco sobre a mesa. Mas não passo a mão na pentelheira. Não conserto nem mesmo um pêlo de seu
desacerto, da selvageria negra. É a única coisa indisciplinada na figura, sob a
luz da lâmpada solitária que pende do teto. A única revolta. O resto está
acertado, liso e sem interrupção. Só ali é que não se escorrega, é que tudo
pára. Bocejo. Por fim, apago a luz. E faço o negrume que era apenas um ponto
devorar todo o quarto.
Ao entrar no banheiro, ele acende
a luz e nota, na beirada da pia, a escova de dentes
dela. Jogada, fora do devido lugar, do copo compartilhado com as outras
escovas, a escova estava, porém, no lugar de hábito, pois ela nunca a punha em
seu lugar. Mas ela não estava mais lá, e a escova não devia estar em seu lugar,
isto é, fora de lugar, e sim estar no lugar devido, no copo das escovas, onde
nunca estava. De dentro de sua ausência, da falta que ela fazia, porque estava
fora da casa, fora do lugar em que deveria estar, sua escova fora de lugar,
marca do seu descuido, a repunha no lugar que era o seu, caminhando entre essas
paredes, deixando as luzes acesas, perdendo as chaves, largando papéis na mesa
dele, migalhas de biscoito no teclado, copos de café por todos os cômodos. Fora
de casa, a casa ainda obedecia à sua desordem. Na ordem dos seus descuidos, na
desarmonia que os alinhavava ao chão e às paredes, uma escova
de dentes já gasta confundia o dentro e o fora, fazia do íntimo um
avesso que, àquela hora, caminhava entre outras paredes, esquecia outras luzes
acesas, perdia chaves de outra porta, amontoava outros papéis em outras mesas,
largava migalhas entre letras alheias, ou quem sabe nem mais comesse massa,
talvez tivesse largado o café, ou tenha começado a beber, mas era certo que
ainda escovava os dentes, e que devia deixar a escova fora de lugar, o que, de
certa maneira, fazia que ela não estivesse totalmente onde estava, que sua boca
continuasse ali, com ou sem farelos, batendo a escova três vezes na beirada da
pia e, metodicamente, se esquecendo de colocá-la em seu lugar, mas a colocando,
de fato, no lugar que era o seu, no seu desacerto, que tanto e tão pouco
convinha àquela casa já sem paredes, nem portas, nem luzes, nem chaves.
Maio acontece em seu corpo,
enraizando-se, enchendo suas pálpebras de azul e de frio aquoso. O grito mais
moderno, propagado por alto-falantes e em letras garrafais, ainda vibra em seus
tímpanos: não, ele não deseja comprar nada, não quer saber das teorias da
apropriação, nem da atração do metal e das demais virtudes capitais ao sucesso.
Quando perambula pelo centro, como agora, mesmo parando de vitrine em vitrine,
quer mais é perder-se entre cores e formas, infiltrar-se de abismos. Está
certo, quando finalmente chegar em casa, terá de fazer isso e aquilo, consertar
a dobradiça da porta, digitar a cota de todo dia, cada toque vale R$0,007,
distribuir broncas e beijos entre os filhos, preocupar-se com o não-andamento
de teses, livros, resenhas e demais promessas. Na rua, porém, o caminho mais
longo entre dois pontos é sempre uma manchete revoltante, uma nova edição da
senhora H., um cabo de guarda chuva diferente. Entra numa loja e pergunta se
tem o cd novo da Suzanne Vega, ou um antigo da Diana Krall;
não, não tem, já sabia disso. Ele até deseja comer uma esfirra,
tomar uma coca-cola, mas está tentando fazer uma dieta, perder 5 quilos. Passa
direto. Pensa que ter fome por algumas horas é até divertido, pois dá para
sentir o estômago vivo. Enquanto caminha, vai repassando na cabeça algo que
pretende escrever quando chegar em casa:
maio
entreaberto num dia de chuva (esse é o título)
nada além
do tempo me procura
sentado
num banco num afã do centro da cidade
a
contrapelo da balbúrdia, do ruído das entranhas, minhas ou do metrô
nada me
perfura, nem astúcia ou turra
só o
murro lento do que passa e acumula no bulício impalpável de vísceras
e nas
tábuas verdes atravessadas sob as nádegas, a sustentação dos ossos e dos
músculos encorpando o vazio
nada me
distingue do pleno, do jorro de pedra da boca dos leões
desertado
de gente e carro
nada me
enxerga em ambos os lados da retina
nenhum
susto nem intercessão entre ritmos de rodas, de asfalto, sêmen e de lixo
atirado na calçada
nada
perdura, arvorado, neste banco pintado de verde
só a
chuva
mas que
importa, trajes, carapuças, tatuagens, certidões, constipação ou a cor do
desalinho
mas que
importa a memória e suas pipas, balões, livros já sem sabor
a
empunhadura genital
nada
conspira, nenhuma trama
só mesmo
a água
e a
ínfima areia passageira do vento
Mas tem dúvidas, fica pensando se
não está lírico demais, fundado em imagens, e ele está fugindo de imagens em
poemas, anda atrás das coisas mais palpáveis, sólidas. Quando chega ao edifício
Marquês de Herval, resolve dar um pulo no Beringela,
ver se tem a Carta ao pai do Kafka.
Um dia ele também vai ter de escrever uma carta a seu pai que, apesar de morto,
ainda o assombra. Não tem. Espia entre as novidades. Não, alguém passou por ali
antes dele. Sai. Subindo as escadas em caracol, outro fragmento lhe vem à
mente, daqueles que não se resolvem, mas que também assombram (talvez ele possa
inseri-lo em algum lugar):
dentro do
ônibus que atravessa a Rio Branco
dentro da
velocidade e da freada
dentro do
troco
acordado,
alimentado, envelhecendo com todas as juntas, com as arruelas, com a napa preta do banco
com o
braço cansado do motorista, com a estridência do motor
em
rotação e translação
até
chegar à Praça da Bandeira e incerto descer
vendo o
ônibus se afastar
separar-se
de meus sentidos
do
fígado, dos intestinos, da digestão e da fome
e
caminhar a pé até em casa
Quem sabe se entrar de fato num
ônibus na Rio Branco, qualquer ônibus, sem se
preocupar com o destino, ele consiga continuá-lo, ou abandoná-lo de vez… Só
então se dá conta da incongruência: quem pega ônibus na Rio Branco não pode
estar indo à Praça da Bandeira, pois é a direção oposta. Apesar de parecer
pouco importante, isso o incomoda. Quando foi que inventou um absurdo daqueles?
Para ele, é mais uma prova cabal de desonestidade, de que precisa ir mais
fundo, cavar nas entranhas algo mais genuíno, que não pegue um
ônibus inexistente, que não tome uma direção falsa. Então entra num táxi
e diz ao motorista: “Praça da Bandeira, por favor.” É a sua maneira de ser mais
honesto.
A alternativa que ele encontra é
atravessar o túnel Rebouças. Com tudo socado num caminhão, vai parar num predinho pixado e de esquina, sem
porteiro, elevador nem garagem. Instalado, caminha pela vizinhança, decora o
nome de coisas e gentes, come porcaria nos botecos locais, faz a ronda dos
comércios. Deixa os barulhos sobreporem suas camadas de
gritos ouvido adentro: o cara da frente que põe rádio e televisão bem
alto na calçada, o garoto de baixo que só escuta heavy
metal no último volume, a igreja do bairro que badala seus sinos
inapelavelmente às seis e meia da manhã, o mascate de pão-doce e sorvete, só
paga um real freguesa, que com seu megafone faz ponto diante do portão todo
santo dia. Apesar de a rua ser pequena, não tem como ficar à parte do volume
dos motores: por alguma razão, os caminhos que levam a Roma passam por ali, a
gente que só anda vociferando passa por ali, as crianças do mundo inteiro
correm todas as tardes da professora de goela potente no pátio da escola do
lado. Não, não dá para se livrar da lei da contigüidade. Ele desce à rua,
negocia com o flanelinha local para não ter a pintura
do carro arranhada, e tem de engolir o cara da birosca que coloca 50% a mais em
tudo o que vende (e o pior é que vende de tudo). Querendo ser alheio, já se vê
articulado num universo de síndico, bombeiro, carteiro, dono de bar, o cara da
luz, o cara do telefone, o cara da água, o cara do gás, o cara da segurança, e
mesmo aqueles que apenas cruzam a rua e nem olham para cima, e mesmo os que
varrem a rua quase que em silêncio. Basta estar ao lado, basta estacionar na
frente do portão, basta fazer omelete às duas da manhã, basta ter um cachorro pequinês, basta ter um problema no automático da
bomba d’água, basta acelerar, ou frear, ou embrear. Lentamente, imediatamente,
mesmo tendo a impressão de ser um corpo estranho, mesmo manejando
a mão-dupla da rejeição, os lugares de conforto começam a aparecer. E
num desses dias, ele acorda querendo colocar um som mais potente no carro.
Non vi si pensa
Quanto sangue costa
Dante
minha boca larga, o nariz largo,
a anca larga, o olhar largo, a calma larga, o passo
não, o passo esguio, o medo esguio
(estampa do corpo), os ossos esguios, o sexo esguio, o negro, o rosa, o pálido,
a demora tênue, o aperto tênue e túnicas, diários, papéis, baús, cartas
escondidas, cultivar o jardim privado, a janela, o piano e meu quarto
essa intimidade exígua,
esparsa em cômodos, arredores
em meu dia ensolarado, úmido,
iluminado, ofegante na subida do sol e da ladeira, rarefeito no raso
emergido da sombra, carregando uma
imponderável maresia, além do rangido na porta, e algum trinado alheio
entre mudanças imperceptíveis,
entre os sentidos e o sentido, entre meu olho e o que vejo, entre minha orelha
e o que escuto, entre a sede e a água, embaixo da saia, na flexão dos joelhos,
no giro do pulso e dos tornozelos, nos comichões
a vida esguia, de esguelha, a
monja obscena que veste minhas roupas, minha noite, meus ossos e se curva sobre
rolos de papéis amarrados com a fita acetinada do silêncio
sempre disse, este é um lugar
onde me dão tanta grana por um beijo e uma moeda pela alma
e tudo bem, podem me esbofetear,
não será a primeira ou a última vez
recusei mais de um casamento por
dinheiro
mas venho vendendo todos os meus
sorrisos, mesmo os que ainda não tive, ondulações de carne, apertos de músculos
e deixo me enfiarem a mão sob a
saia sem nenhum sobressalto de voz
olha, eu dou para qualquer
um que queira me pagar uma semana de aluguel ou acene com letreiros luminosos
ainda que levantem dúvidas sobre
meu talento
se não passo de uma criança
estúpida, manipulada por todo tipo sem escrúpulos
ou se de fato há algo de
inigualável em minha presença, além é claro do volume da bunda e da angulação
dos meus peitos
mas sobre isso, carrego o
argumento imbatível: para mim, tudo é possível
somente a luz se fixa nas curvas
do meu rosto
o amarelo sobreposto à raiz escura
dos cabelos e uma calma recém disposta entre o olhar e o aceno
nenhuma sombra de vômitos,
barbitúricos, estimulantes, tranqüilizantes, moderadores de apetite, de manchas
nos dedos e nos dentes
nenhum resíduo de insônia, roer de
unhas, incontinência urinária, de marcas deixadas pelo peso anônimo dos tantos
corpos sobre o meu
nem lembrança de nomes, pessoas,
clínicas, becos e bancos traseiros de automóveis
ou de quando acordei assustada em
cama desconhecida
agora em meu corpo não cabe mais
nada
a não ser a pele clara, um arrepio
de vento, o discreto e proposital franzir de cenho
e o toque final, incessante
indagação
até quando
reconheço a crueza no meu corpo
desbotado
agora que a vida me abandona sem
barulho
jornalistas e outros patifes vão
dizer amanhã como foi trágica a minha morte e todo esse blablablá
mal sabem eles
essa é a mais fácil das aventuras
duro mesmo foi acordar e continuar
vivendo, mal sabem eles
não vêem nenhuma virtude na
ignorância
nem intensidade nas mentiras que
contei
ao diabo com as homenagens, missas
e rezas, enfiem no rabo as retrospectivas, as tiragens especiais, os selos
comemorativos
sempre deixei claro, prefiro o assobio do servente de pedreiro quando
atravesso a rua de malha colada e sem calcinha
gostei mais dos caras comuns,
rudes e até meio violentos
no fim das contas, sempre acabava
dormindo sozinha, envolta em aroma e pesadelo
aprendo, diante do corpo esvaziado
de toda dor
trágico foi ter tão cedo
vislumbrado um caminho e tê-lo seguido apesar de tudo
mal sabem eles como foi tranqüila
esta última decisão, tomada no final da tarde, ao sair do banho
senti que a coisa toda já dera o
que tinha de dar
assim, depois de telefonemas e
anotações inúteis em meu diário
sentei-me na beirada da cama e
meio sem querer, soltei a terrível gargalhada
mama
pergunto-me o quanto mais posso
suportar se já não agüento o peso das pernas
perguntei aos joelhos ralados, ao
pulso dolorido, ao ouvido, aos olhos fechados
em todo lugar eram quatro paredes
e eu sou apenas um fiapo de voz, um nome branco
não sei quantas vezes tive de
morrer, ainda
agora eu nunca mais quis um homem
sobre mim, agora eu nunca mais sangrarei
eu já sei saber entrar pela porta
dos fundos, sentar-me nos bancos de trás
nunca falava mais alto do que
ninguém
aprendi poder lavar calçadas e
banheiros, e com esses noventa centavos eu não posso mais apanhar
a puta lá da esquina me deixa ouvir a vitrola