Leonardo Fróes comenta o livro Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer, de Caio Meira
COMO NÃO PARAR DE NASCER
Na recente poesia brasileira, este é um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Um livro de “calma larga”, que de modo geral dispensa o freio dos pontos, substituindo-os por simples intervalos de respiração entre as frases, e que poderia dispensar até mesmo a seqüência dos títulos de individuação dos poemas: porque o todo se revela, em especial na primeira parte do texto, a que fala mais de perto à minha própria experiência do caos, como um só discurso em fluxo, como breve epopéia una forjada numa espécie de jogo de epidermes que leva à aceitação e fusão no torvelinho urbano.
“Close to the bone”, o poema que abre o livro e essa parte, ou, pela leitura que se fizer em contínuo, o elo inicial na montagem da cadeia temática, é um fragmento que já nasce antológico, sem nada a escorregar para fora de sua plasticidade redonda. Se a calma do livro é larga, largado e vasto é o fôlego com que o poeta aí se equilibra entre o clamor que vem do mundo, e está por dentro do seu corpo espaçoso, e outras pressões observadas nas intimidades orgânicas:
por vezes sinto esse torvelinho dentro da barriga, e não sei se é
fome ou lembrança de fome, ou se são movimentos espontâneos
da voracidade do vazio
nem sei que tipo de limite representa a pele, se me separa da
madrugada ou me une a ela
se o frio que sinto nesse vidro me pertence ou sou eu que
pertenço ao frio ou ao vidro, ou se o ponto em que tudo se
entrelaça surge apenas para desaparecer
Numa carta hoje célebre, datada de 27 de outubro de 1818, Keats disse a seu amigo Richard Woodhouse: “A Poet is the most unpoetical of any thing in existence; because he has no Identity — he is continually in forming — and filling some other Body”. O livro de Caio Meira, com seu “destino maleável”, onde “cabe tudo que entra pela janela do olho”, onde é impossível “distinguir o fútil do necessário” e onde o poeta até formula uma ameaça de “parar de nascer”, logo nos remete à impressão de que aquela idéia de Keats, tanto tempo depois, está sendo confirmada na prática por uma nova vivência.
O eu deste Primeiro Cachorro, que deambula em suspensão e padece de uma “incerteza primitiva”, cede à “lei da contigüidade” e, mesmo que queira “ser alheio”, denota que só se realiza ou se entende, em seu estado de formação permanente, ao assumir outras vontades e preencher outros corpos. Tal processo se radicaliza de todo na última seção do conjunto, a intitulada “Venéreas”, quando o eu do espaço literário é levado a uma mudança de gênero, falando agora e com vigor como se fosse a voz de mulheres de existência dramática, quer pelo trágico dos acontecimentos narrados, quer pela forma teatral obtida nessas metamorfoses completas.
Deus e o Diabo são parceiros na imaginação popular. Muitos exemplos da estreita cooperação entre os dois, na criação e condução dos fenômenos, estão contidos no ensaio “Méphistophélès et l’Androgyne ou le Mystère de la Totalité”, onde Mircea Eliade registra que o Diabo tanto nasce de uma cusparada de Deus, na visão dos morduínos da antiga Rússia, quanto, segundo uma lenda búlgara, da própria sombra divina que se levanta e anda à parte para agir por vias opostas.
Nas situações mais diversas, movendo-se na claridade dos trópicos, onde “orientes e mitos surgem ofuscados”, o Cachorro que é capaz de dizer qual o sentido da vida dá a entender que seu mundo é de inclusão irrestrita. Nada, ninguém fica ao abandono nas imprecisas fronteiras do organismo universal que o constitui como a tudo. Soa-lhe bem “perpetuar o segredo de algumas misturas”, pois ele sabe que estará para sempre, mesmo que se mantenha calado, ou que abjure a própria estirpe, “na companhia dos demais canalhas”.
Nem por isso porém deixa o Primeiro Cachorro de rir à farta e com sabor diabólico, pois que ele atua nesse ponto como oposição hipercrítica, de alguns dos grandes excessos que o tropel humano pratica. Impagável caricatura verbal, que denuncia o esnobismo e as botinhas de um feminino adulterado e saturado de estética, o poema “Se não fosse a Sorbonne...” é, por tal aspecto, a mais perfeita construção de sua sombra maldita, que se expressa às cacetadas pela veia satírica.
Observe-se ainda que este livro, notável pelo calor que irradia, situa-se também em destaque, na produção contemporânea, por seu domínio estilístico. Até a parte intermédia, não há sequer um ponto de parada, tudo sai de uma só vez num jorro forte e incontido. Mas essa parte, “Outras vidas, a mesma”, bruscamente se inicia com uma obra em díptico, “No vão da madrugada”, que se resolve em frases milimétricas, que é uma pontuação exacerbada de desejos em troca, mas no escuro. Quem a lê, assiste a um filme. E é a orgia dos pontos que, eletrizando as linhas tensas, transforma a escrita feita em cortes numa seqüência de quadros.
O texto em fluxo de “Epidermática”, a prosa poética e cinematográfica de “Outras vidas, a mesma”, que ora tende à ficção, ora ao documentário, somam-se pois à teatralidade das “Venéreas” para mostrar que seu autor, mesmo seguindo em três caminhos, mantém contudo, com mão firme, a unidade entre os módulos. Garantem-na não só a perícia, mas também e sobretudo a qualidade do homem que parece estar nestes versos por ter sentido muito e a fundo as confusões ao redor. Um homem simples como a vida, que poderia desistir da tentação das boladas, dos “milhões de dinheiros” que lhe apregoam às cegas, para autenticamente “caminhar à tarde, pegar o metrô em botafogo e ir ao centro da cidade procurar um livro no sebo”.
Terra Santa,
Petrópolis, 2003