sou mesmo esse cara que aparece na minha cara, ainda que nem sempre apareça, por vezes me ausento, vou dar uma volta
não pense, porém, que fico do lado de dentro da cara, amarrado, carrancudo: a cara não presta para separar dentro e fora, eu e outro, meu e alheio
à cara, esse lugar como outro lugar, acontece mudar ao sabor de muitas coisas do mundo, visíveis, invisíveis, não necessariamente pertencentes a alguma intimidade
e quando digo a minha cara, talvez nem mesmo minha, ou minha porque andamos juntos, vou aonde ela vai, na maior parte das vezes
a cara, pelo menos essa minha cara, tem a vantagem de ser a coisa menos metafórica do mundo, não sendo outra coisa que não seja ela mesma, nem maior, nem menor, nem pior, nem melhor
por isso a cara não mascara nada, nunca mente, só mentiria se de fato, descarada, houvesse um único habitante nesse corpo que chamo meu corpo, se uma só pessoa viesse olhar através do cristalino dos meus olhos
a cara tem a cara que tem e nunca outra cara que não seja a cara que tem, matriz mutável de todas as caras daqui até o fim de tudo o que vier acontecer em sua superfície
seus trinta e tantos músculos, o ângulo duro de seus ossos e um punhado de paisagens e zunidos compõem e descompõem as facetas que uso para encarar o mundo
na lata, com essa cara de lata, resisto aos sopapos e beijo o que é vivo
1.
Edmond Jabès inventa para si uma máquina poética: ao acordar, antes de se pôr ao trabalho, senta-se por tempo indeterminado em sua poltrona, ali ficando sem fazer absolutamente nada. Eu acrescentaria, sem poder saber se de algum modo ele o fez, algum escuro à sua invenção. Ou alguma parede, qualquer parede, que atenuasse as interpelações das imagens. É também uma máquina de incorporação do silêncio à escrita, não silêncio o teórico, mas o palpável, imediato. Ou uma maneira de deixar agir as margens expostas das frases que o assombravam.
2.
Acordo às 4:30 da madrugada e me reconcilio, via Nelson Freire, com o romantismo e com Chopin. Não escuto ali mais nada derramado, bem-sonante ou afetado: o tema da sonata, brando, límpido, contém muita fúria e indagação infinita, irrespondível. O teclado se alastra pela escuridão, interrompido apenas pelos leds dos aparelhos eletrônicos.
3.
Do Zaratustra, difícil ir adiante do prólogo, que avisa que o homem é uma corda atada entre o animal e o além-do-homem: não sendo uma explicação do homem, que permanece obscuro, e se torna ainda menos inteligível, sou devolvido à vida que atravesso, ao corpo que uso não apenas para respirar ou comer, ou sonhar ou pensar, mas como abismo de meus passos.