Renato Rezende comenta Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer, de Caio Meira

Resenha publicada no Prosa e Verso (O Globo: 31/07/2004)

Dois poetas vigorosos do nosso tempo


Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer, de Caio Meira. Azougue Editorial, 62 páginas. R$ 18

Escritos da indiscernibilidade, de Alberto Pucheu. Azougue Editorial, 64 páginas. R$ 18


Renato Rezende

Quase que na surdina, com livros pequenos e com tiragens pequenas, mas cada vez mais bem cuidados e elegantes, a Azougue Editorial tem, nos anos recentes, publicado alguns dos melhores e mais instigantes livros de poesia que têm surgido por aí. É o caso, por exemplo, de “Morrer”, de Guilherme Zarvos, publicado no ano passado sem que tenha recebido a merecida atenção. É o caso também de pelo menos duas das edições mais recentes da editora, “Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer”, de Caio Meira, e “Escritos da indiscernibilidade”, de Alberto Pucheu. Amigos de longa data, mas cientes da morte das vanguardas e da futilidade das bandeiras erguidas em torno de grupos, esses poetas se aproximam da fecunda faixa dos 40 (quando a obra de um poeta costuma começar a revelar seus mistérios e contornos mais profundos), com obras que se distinguem pela individualidade e pelo vigor. Em comum entre ambos, principalmente o fato de serem poetas que estão logrando digerir as diferentes vertentes da poesia brasileira atual e oferecendo possibilidades genuinamente novas para ela; enquanto expressam sem concessões e com notável consciência e maestria de linguagem a complexidade do ser contemporâneo. Isso não é pouco.

Com “Escritos da indiscernibilidade”, Alberto Pucheu, que também é filósofo, procura “descobrir relações de mestiçagens” entre filosofia e poesia, e declara desinteresse por “toda poesia que, implícita ou explicitamente, não oferece uma densa malha do pensamento”. Composto por fragmentos que se sucedem e constroem com rigor a aproximação possível ao seu tema, encontramos no livro afirmações que vão direto ao âmago: “Gostaria de lançar para a poesia, para a arte, o conceito de ínfima mediação, ou, como prefiro, abreviado, o conceito de: i.mediação”. Ou essa, iluminadora: “Atingir a autenticidade do pensamento, sobretudo nos dias atuais, mas também em qualquer época, está diretamente ligado a se deixar acolher por uma zona de esvaziamento, por uma zona de esquecimento, para poder ser surpreendido pelo impensado que habita silenciosamente o mundo e quer nos ocupar”.

Mas isso é poesia? Sim, é poesia, e das boas. Não apenas porque poderíamos dizer que poesia é tudo aquilo que chamarmos de poesia — e, afinal, a arte conceitual vem promovendo apropriações parecidas e riquíssimas no campo das artes visuais há décadas — mas porque os textos estão impregnados de vida — ou de “admiração”, como coloca o poeta — mais pulsante e genuína. É ler para sentir.

As seções “Escritos da admiração” e “Escritos da ínfima estranheza”, que abrem o livro, tratam dessas mestiçagens, da linguagem, e do silêncio — que num admirável tour de force o poeta-filósofo mantém dentro do âmbito da palavra — de uma maneira excitante e tensa.

Nas duas seções seguintes, “Escritos da sintaxe do trânsito” e “Escritos da vida”, que remetem às experiências poéticas de seu livro anterior (“A vida é assim”), o poeta reflete sobre a linguagem esticada até o limite da fronteira entre ser e não-ser, e chega ao paradoxo que já havia apontado: “a linguagem, por fundamento e definição, é poética, mesmo nos momentos em que não a imaginávamos sendo”. Pucheu, amigo do mito e do saber, expande os limites do poético. “Escritos da indiscernibilidade” deve ser estudado, principalmente por aqueles ávidos em produzir pensamento e poesia.

O universo das “secreções sebáceas, tubos, alvéolos”

O terceiro livro de Caio Meira, “Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer”, encontra uma saída para as questões de ser e do esvaziamento necessário para um pensamento autêntico, propostas e resolvidas por Pucheu exclusivamente dentro da esfera da linguagem, através de um mergulho profundo em seu próprio ser físico, a começar pelo sensorial, pelo corpo. Nos extraordinários poemas que abrem a primeira seção do livro, “Epidermática”, o eu poético recua para dentro de si mesmo (“acordo e durmo debaixo da pele”), até o universo das “secreções sebáceas, tubos, alvéolos”, para, a partir daí, elaborar — com extraordinário domínio de linguagem — uma identidade que é ao mesmo tempo absolutamente centrada em si, nas suas histórias e dúvidas sobre as decisões tomadas na vida, e aberta e permeável ao caos e à grandeza do mundo.

Em “close to the bone”: “por vezes sinto esse torvelinho dentro da barriga, e não sei se é fome ou lembrança de fome, ou se são movimentos espontâneos da voracidade do vazio”; em “sob o sol cerrado”: “o mesmo sol desperdiçado no topo de uma montanha solitária (avistada através de um cartão-postal)”.... “pegar um punhado dessa mistura de mato seco, poeira e formigas, cheirá-lo ou talvez comê-lo, não significa ficar mais próximo da terra ou da gente”; em “entre-fôlegos de um basqueteiro solitário”: ...“talvez fosse milionário e igualmente descontente, talvez estivesse feliz criando cogumelos em Nova Lima”... “talvez eu deva jogar na mega-sena acumulada”, ... “poderá caminhar à tarde, pegar o metrô em Botafogo e ir ao centro da cidade procurar um livro no sebo?”.

O livro, enfim, fala do sentido da vida. Algo que está sempre nascendo. Apesar de declarar sua completa ignorância sobre a existência (“sei que tenho 32 dentes, leio livros e jornais, vou ao mercado e ao cinema, escuto música clássica e popular, e posso dizer de cor os números dos meus documentos, além de uns poucos poemas aprendidos há muito tempo”), o poeta aceita-a em seu evidente mistério, e após o reconhecimento honestíssimo e crítico de si, do seu trabalho (“De como e quando se descobre uma falcatrua” é um dos principais poemas do livro), do mundo e do seu lugar no mundo (“e num desses dias, ele acorda querendo colocar um som mais potente no carro”), parte para o reconhecimento, às vezes ácido, às vezes compassivo, do Outro, seu espelho, nas seções “Outras vidas, a mesma” e “Venéreas”.

Como aponta Leonardo Fróes em seu prefácio ao livro, “Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer” atesta a visão de alguém que parece “ter sentido muito e a fundo as confusões ao redor”; e que, com rara maestria e sensibilidade, soube digeri-las e traduzi-las para o leitor.


RENATO REZENDE é poeta, autor de “Aura” e “Passeio”, entre outros